sábado, 18 de julho de 2009
Eu trocaria a eternidade por aquelas noites.
Por um segundo eu senti o teu cheiro, e vi você encostado no peitoril da cozinha bebendo naquele copo, como fazia toda manhã. E teu cabelo bagunçado te deixava ainda mais lindo. Por um pequeno intervalo de tempo, eu te vi rindo pra mim e mandando beijo. Mas não tinha nada além do copo. Além da lembrança. Da saudade. Dos pedaços que tu deixou. E quando tu entrou naquele ônibus, deu vontade de te rasgar inteiro. Me ajoelhar, te bater, chorar, implorar. Será que você não percebia que tava esquecendo de mim? Não conseguia ver meu medo infantil? E como eu ia me virar sozinha? Que eu ia fazer o dia inteiro? E as noites sem você? A TV só tinha graça quando você contava as propagandas. A música só tinha som quando você me beijava e cantava pra mim. O dia só tinha cor quando você me acordava sorrindo. A noite só tinha brilho quando você ficava me vendo dormir, e quando eu te fazia dormir. Eu te surpreendi, porque pra você eu sempre fui a mais forte. Mas eu sou chorona. Sou criança. E quando você me abraçava o mundo inteiro virava um parque de diversões. E eu até sentia gosto de maçã do amor. Pra você eu sempre planejei as tuas voltas. Mas o que você não sabe, é que pra mim, eu sempre planejei nossos domingos. Nosso dia-a-dia. Você entende? Eu te espero o tempo todo. Se eu morasse aí pertinho, todo dia eu vinha te ver. Canta pra mim. Me põe pra dormir de novo. E me abraça pra sempre. Me protege e me faz achar graça até cair no chão de tanto rir. E eu te abraçava bem forte, pra ter certeza que você também esquecia do mundo todo quando olhava pra mim. E enquanto você brincava na seqüência: olhos, boca, olhos, sorriso, não saía da minha cabeça aquele trecho ‘não morre, por favor, seja ele...’. Mas você já era. É. E sempre foi. E eu chorei. E eu nunca choro. E meu coração quis te dizer tantas coisas. Eu viajei o mundo todo ali, e o mundo era só eu e você. Mas eu calei. E tinha uma vozinha ali dentro que repetia ‘não precisa falar nada, ele vai entender.’ É que dessa vez, pela primeira vez, não é fantasia. Aconteceu. E você passava a mão em meu rosto, como admiração. E eu não sabia o que achar, porque eu nunca achei possível alguém falar do meu jeito. E você disse ‘teu jeitinho’, logo eu que nunca tive nada de diminutivo. Tava tão lindo. Você aproximava teu sorriso e ria bem próximo, e dizia que ia morrer de saudade. E queria te dizer que você é tudo o que eu queria ser. Porque você vive a vida de verdade, enquanto eu planejo como é viver. Mas com você eu sou toda de verdade. Com você eu sou toda. Com você eu sou. Com você, eu. E eu te beijava pra sempre. Te matava de hora em hora só pra ver como preciso de ti. Mas voltando ao peitoril ali na minha frente. Tudo tava morno. Não havia nenhuma risada alta e gostosa, nenhuma música agitada no celular, nenhuma gritaria pela sala... Nada. Só o copo, vazio. Somente eu, vazia. E eu continuava ali, imóvel, vendo onde iria permanecer até você voltar. Naquela cozinha. Naquele quarto. Naquela música. Naquele sofá. Naquele fim de tarde. Naquele início de dia. Naqueles abraços longos e silenciosos, que falavam tudo. Naquela lembrança viva, forte e, levemente, triste. Mas que é, e sempre será, a tristeza mais alegre que se pode existir. E a mais esperada também.
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